
Espero que leiam esta narração com o espírito aberto e paciência, ou não…
A manhã tinha nascido fria naquele primeiro dia de Novembro, ainda assim melhor do que a anterior, pelo menos não chovia nem fazia vento. A visita a que me obrigava naquela data aos entes desaparecidos e às suas memórias foi rápida. Os cemitérios estavam bastante desertos e não haviam cumprimentos de circunstância ou pórticos a evitar, e ainda bem, pensei. No entanto nada fazia prever os acontecimentos que brevemente iriam marcar o regresso dos enterras ao monte, por volta das 10.
Os ausentes infiéis, Cute e Chefe tinham deixado claro que não iam fazer parte daquela expedição aos confins de ‘Ass Candels’. O propósito de tão grande demanda era a busca dos medronhos. Esses frutos quase proibídos, anormalmente esquivos e vermelhos, raramente são visíveis para os comuns mortais que por aquelas bandas deambulam e, quando apanhados, são rapidamente mergulhados em líquido, para
os manter letárgicos e evitar a sua fuga.
Mas para quem se esconde assim de nós enterras, entes do monte, determinados, habituados a orientação em situações extremas de calor, frio, vento ou lama, naturalmente só podemos dizer: “Não menosprezem os nossos dois sentidos!*”.
Quando passamos por aqueles lugares ermos percebemos o quão difícil iria ser a aventura. As portas que normalmente de par em par se abriam para nós no dia do santo, com fartas mesas e alegres caras para nos receberem** estavam cerradas. Uma delas guardada por dois cães, que se mantinham quedos a salivar, repousando como dois Cérebros e desejando que um de nós perdesse o norte ou outra qualquer coisa. Mas mantivemos o sangue frio e passámos sem os olhar. De seguida atravessámos um riacho abrigado por árvores frondosas e impenetráveis silvados, para nos lançarmos na subida ao alto do monte, dito dos pneus. Aqui chegados fomos tentados por aquelas que alugam o seu corpo** mas resistimos aos seus chamamentos e a exemplo de Tântalo, não tocamos naquilo que desejávamos, embora pudéssemos, ao contrário dele no seu suplício. Penso também que não passam recibo logo, são despesas confidenciais e tributadas dessa forma.
Naqueles trilhos pontuados aqui e ali por caçadores armados até aos dentes****, as paisagens eram em tons castanhos, despidas de vida pois haviam-na entregue a um mar de chamas que no Verão por ali tinha passado. E foi num destes trilhos que o Coutinho tombou maravilhado, já depois da segunda subida, mas também perto de uns cães com dono, que procurava uma raposa com a ajuda de um pau, pronto a abrir uma cabeça incauta e descoberta, só para saber se era de ar e vento. Ora isso é coisa que nós (enterras) não temos, muito menos o Coutinho, que trazia mais duas ou três novidades, e claro o capacete*****. Armámos barraca logo ali e restaurámos forças para a nova subida que nos escondia o Sol e a descida em direcção a Lemende. O Tu o’Six trazia num dos bolsos parte do recheio de duas mesas de abastecimento de outras tantas maratonas. Acho que ele às vezes exagera, pois podia trazer mais alguma coisa nos outros dois bolsos, mas ele é que sabe…
Como o que sobe tem que descer lá fomos a cinquenta e tais chegando cada vez mais perto dos medronhos. Já os cheirava à distância, imaginando-os maduros e enrubescidos pelo Sol, sentindo a sua textura agreste e consistência firme e claro, sem aditivos! Por detrás de um manto translúcido de verdes, deixavam-se perceber nas suas formas redondas sedutoras com copas naturais, o que hoje é raro, e agitavam-se suavemente cada vez que tocados pelas mãos de Éolo, ou pelas nossas...
Até os comemos!
*Já tivemos mais. Excluo o apurado sentido de orientação do Chefe.
**a troco de dinheiro…
****nunca percebi o alcance desta figura, mas enfim… nunca percebi muitas coisas…
*****que acho (achismo) não era novidade… mas não tenho certeza…